sábado, 21 de maio de 2011

Nada como tentar...


Hoje depois do almoço fui fumar um cigarrinho lá fora e apareceu-me à frente um senhor já entradote na idade, pasta gigante de documentos debaixo do braço, muita dificuldade em fazer-se entender devido ao sotaque acentuado de um qualquer país de Leste, mas com um sorriso confiante e simpático a perguntar se necessitavamos de funcionários para construção. 
Expliquei-lhe que ali funcionava uma empresa de arquitectura, que apenas fazemos projectos e não admitimos pessoal para trabalhar em obra.
Devolveu-me um largo sorriso e lá foi andando com o mesmo ar com que me apareceu à frente.

Por vezes o que vejo faz-me lembrar acontecimentos que raramente me vêm à memória e este foi um deles.

Quando tive a minha filha decidi estar com ela até aos 10 meses.
Após essa altura decidi procurar trabalho na área do secretariado. 
Fui a algumas entrevistas e para uma das que estava marcada não arranjei maneira nenhuma de poder deixar a minha filha com ninguém. Ainda tentei desmarcar mas o director da empresa estava de partida para uma viajem de negócios, de modo que, depois de respirar bem fundo decidi levar a minha filha bebé para a dita entrevista.
10 minutos antes da hora marcada apareci ar confiante de quem se sente válida, competente e cheia de vontade para trabalhar. A Lara também ajudou porque se manteve serena e caladinha como se compreendesse que aquela não era a altura indicada para pedir comida ou fazer um cocó malcheiroso...
Expliquei a situação e a entrevista correu mesmo muito bem. Fiquei mesmo com a certeza de que me tinha saido bem, mas claro o caso era estranho e podiam não ter achado graça nenhuma. Mesmo assim, e contra a opinião de todos, que acharam que eu não batia com os ponteiros todos, fiquei esperançada.
No dia seguinte fui a outra... já sozinha... que correu tão bem ao ponto de me ligarem logo nessa noite a chamarem-me para trabalhar.
Logo de seguida... trim...trim... O senhor que me tinha entrevistado e olhado atónito para a minha entrada em cena com uma filha a tiracolo... a dizer que eu era muito bem vinda à equipa e que ficou muito impressionado com o facto de eu ter aparecido confiante ainda que aparentemente em desvantagem e que lhe parecia que eu me havia de integrar bem, blá, blá, blá...

Escolhi a primeira opção porque a Just Portugal era mesmo no centro de Cascais, perto da minha Mãe com quem a Lara ficava, perto da gráfica onde a minha Mãe trabalhava e para onde ia com a Larita (que até tinha um parque e um baú com as bonecadas dela) e também perto do trabalho do Jaime e da casa da minha Sogra. A localização era perfeita e como as funções e os ordenados eram equiparados (apesar de no outro lado ser um pouquinho mais elevado) acabei por me decidir ficar ali.
Ás vezes ainda me pergunto se terei decidido bem...

Isto tudo para dizer que a confiança é tudo.
A aparente desvantagem do senhor de Leste que mal se fazia entender... fez-me lembrar a minha.
O sorriso confiante dele... fez-me lembrar o ar com que entrei naquele escritório com a minha filha no ovinho debaixo do braço, como se de uma bolsa Louis Vuitton se tratasse.
Sei que não vai ler estas palavras mas desejo-lhe boa sorte!

O contrário disto é outras coisas a que já assisti (e a Flávia também) ali mesmo no atelier.

Posso destacar 3.
1
Certo dia tocam à campainha. Abro a porta. Aparece um senhor que me pergunta se é ali.
É ali o quê??? Se é ali. Mas meu Deus se é ali o quê??????? A entrevista. Diz que vem para uma entrevista. Pergunto-lhe com quem (sei lá... podia ter alguma reunião marcada da qual eu não tivesse conhecimento). Diz que não sabe. 
Pergunto-lhe qual o assunto da entrevista, já que não me sabe dizer com quem vem ter, pois podia ser algum assunto relacionado com fornecedores de material para uma obra de algum projecto nosso.
Diz que vem de outra empresa que não sabe qual é e que não sabe porque foi chamado, o que está ali a fazer, com quem vem ter ou sequer o ramo da nossa actividade.
Claro que a minha única esperança são as colegas administrativas (pois lá consegui descobrir que afinal o mandaram da Segurança Social). A ver se sabem de alguma papelada trocada sobre o assunto deste senhor mistério.
Ninguém sabe de nada... pois claro...
Tive que lhe sugerir que se fosse informar melhor... como se isso não fosse mais que óbvio!
Espero que já tenha conseguido dar com a tal empresa... Nunca mais o vi...

2
Certo dia tocam à campainha. Abrem-lhe a porta (ohhhhh nãooooooo!!!!!!!). Era um homem muito bom. Tão bom, tão bom, tão bom... que chegava mesmo a ser o melhor. E blá, blá, blá e que sou muito bom e que tenho muita experiência e que quero falar com este e com aquele e com o outro.
Ninguém lhe deu cavaco. O homem não arredava pé. Ali plantado a dizer que era bom e óptimo e que não se ia embora porque senão a nossa empresa perdia o privilégio de conhecer o melhor trabalhador de sempre. Sugerimos que deixasse o curriculum e que depois seria contactado. Qual quê??? O homem já tinha criado raizes e nada o fazia desaparecer. A Maria João (chefe na altura) foi mais dura que nós. Mandou-o embora garantindo-lhe que ninguém o iria receber. Qual quê??? E arrancá-lo dali...
E sou o melhor... e não vou... e alguém vai ter que me receber... e sou o melhor... e não vou... e alguém vai ter que me receber...
Até que uma vozinha celestial lhe pergunta: Mas diga-me só uma coisa que eu ainda não percebi... se o senhor é assim tão fenomenal porque é que ainda não arranjou emprego noutro lado?
Ah, ah, ah, ah... Nunca mais o vi...

3
Um deles teve mais sorte... 
Apareceu lá um que era mesmo perfeito. Esse era o mais perfeito dos senhores engenheiros directores que eu conheci. Dizia à boca grande que era tão bom que nem sequer precisava de se esforçar muito. Dizia que não gostava de trabalhar e que se podia dar ao luxo de existir para contribuir com ideias e para mandar os outros trabalhar. Tirava macacos do nariz, punha as pernas em cima da secretária, palitava os dentes com agrafos, dava puns enquanto falava em alemão de um lado para o outro do corredor... e tudo isto... enquanto se ocupava apenas em ser perfeito.
Ah, ah, ah, ah... Nunca mais o vi...

A vida é mesmo assim... uns tentando... outros chateando...

Beijinhos da Paulinha

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