Uma das figuras públicas com quem mais simpatizo é a advogada e ex-deputada do grupo parlamentar do PCP, que actualmente integra o Movimento Democrático de Mulheres e ocupa um cargo na assembleia municipal da Câmara de Setúbal, que é actriz e muitas outras coisas, e que deve ser uma pessoa feliz e de bem com a vida.
A sua caminhada é repleta de lutas e causas.
Admiro muito isso nas pessoas... a luta por um ideal que não se sobreponha aos interesses dos outros e a coerência nas convicções...
Admiro muito isso nas pessoas... a luta por um ideal que não se sobreponha aos interesses dos outros e a coerência nas convicções...
O poema de António Gedeão "Calçada de Carriche" dito pela Odete Santos deu-me alento para fazer um ao meu jeito ao qual chamei "Irene Maria". Isto há cerca de 20 anos atrás.
Perdeu-se. Perdeu-se o meu poema, como se perderam na minha memória a maior parte das passagens da história de vida desta mulher sonhadora e triste que consegue com o seu vestido velho e desbotado encontrar a felicidade num segundo amor.
As passagens mais marcantes ainda estão frescas. Irene Maria tinha dois filhos e outro a caminho. O marido era uma besta. Ela coitada, pedia "carinhos por esmola dados a correr no intervalo da bola" e entretinha-se a aprender a ler já noite escura quando os dias de menor cansaço o permitiam... A coragem por fim surgiu e fugiu dele com os filhos a tiracolo. Ela, eles e a roupa muito usada que lhes cobria o corpo. Lembro-me que encontrou um novo amor. Lembro-me que "foi o vestido já velho e sem cor que atraiu o homem a quem Amor". E lembro-me de acabar a dizer qualquer coisa do género "Irene, coitada.... que vida lixada.! Agora é patroa, mas já foi criada".
Vou reinventar o meu poema (atenção que lhe chamo poema mas nada sei sobre as regras de posicionamento de estrofes, se o verso X que tem que rimar com o Y ou se estou a seguir regras linguísticas e gramaticais). Tentarei ser o mais fiel possível à sua forma original.
Calçada de CarricheLuísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe
sobe que sobe
sobe a calçada.
Luísa é nova
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe
sobe que sobe
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe
sobe que sobe
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe
sobe que sobe
sobe a calçada.Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
sobe que sobe
sobe a calçada.
sobe que sobe
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Uma rosa para todas nós... Mulheres...
Beijinhos da Paulinha
Beijinhos da Paulinha


Sem comentários:
Enviar um comentário